Na sua primeira entrevista depois de eleito para o terceiro – e último – mandato como presidente da APAT, António Dias falou ao TRANSPORTES & NEGÓCIOS da Associação, dos transitários e das apostas nacionais nas exportações e na transformação de Portugal na porta de entrada atlântica da Europa.

Pragmático, António Dias garante ter percebido os sinais dados pelas últimas eleições (as mais concorridas dos últimos 18 anos). Assume que o número de transitários portugueses irá diminuir, mas acredita que continuará a haver espaço para operadores nacionais… cada vez mais virados para o exterior.

A aposta nas exportações (e o normal fluxo de importações) serão o melhor garante da actividade transitária, sustenta o presidente da APAT. Que diz que já perdemos o “comboio” para nos tornarmos a porta atlântica da Europa, desacredita das potencialidades (para Portugal) do alargamento do canal do Panamá, e desvaloriza o impacte das cargas de trânsito na economia nacional. Uma utopia, remata.

T&N – A APAT sai mais forte destas eleições?

António Dias – Acho que sim. Foi muito importante ter aparecido outra lista. Porque obrigou as pessoas a reagir, a terem ideias. Agora, nós temos muitas vezes ideias, o que não temos é sustentação económico-financeira para as concretizar. A Associação tem limitações nessa área. Não somos uma associação rica. Temos de ser pragmáticos e ir ao encontro daquilo que é possível.

T&N – Os associados perceberam isso?

António Dias – Acho que sim. No fundo deram-nos um voto de confiança pelo trabalho que já vinha sendo realizado. Mas também nos avisaram para que havia associados descontentes.

E isso é importante para tentarmos fazer mais e melhor, em prol da Associação e dos associados.

T&N – Este será o seu último mandato, já o anunciou. A mexida nos estatutos é para tornar a Associação mais ágil?

António Dias – É para a tornar mais ágil e mais adaptada aos tempos que correm. E apostamos na limitação a três do número de mandatos consecutivos do presidente da Direcção. Porque nove anos é tempo suficiente para fazer algo pela Associação e pelos associados. Não faz sentido eternizar as pessoas. É preciso dar lugar a outros, com outras ideias, para que as ponham em prática… desde que se lhes entregue a Associação em condições de poderem dar continuidade ao trabalho.

T&N – No último Congresso, anunciou que o processo de revisão do Estatuto da actividade transitária estava em curso, e apontou este ano para o concluir. Entretanto já se passaram alguns meses…

António Dias – Sim. Está aberto o período de discussão interna. Vamos iniciar as reuniões com os associados para discutir propostas de revisão do Estatuto. E mantemos o objectivo de terminar o processo ainda este ano.

Depois teremos de apresentar a proposta à tutela. Mas neste momento não temos propriamente uma tutela, porque o IMTT está em fase terminal e o IMT ainda não existe.

T&N – Esse vazio de tutela afecta-vos no dia-a-dia?

António Dias – Sim, esse é um problema que existe. Enquanto não houver alterações, é ao IMTT que apresentamos os nossos problemas. Aliás, temos uma excelente relação com o dr. Carlos Correia, que ainda é o presidente, mas que já não pode, não deve e não quer tomar decisões de fundo. Para nós é muito importante que isso se clarifique rapidamente.

T&N – Disse que Portugal tem transitários a mais. Estes tempos de crise não seriam uma boa altura para reformular esse quadro?

António Dias – Sim. Mas o número de transitários está a diminuir por efeitos de dificuldades várias e insolvências, que não é o que desejamos. Só no ano passado desapareceram umas 24 empresas (embora de pequenos volumes, sem grande expressão no mercado). E é verdade que apareceram outras, mas muitas não chegaram sequer a iniciar a actividade, ou fecharam logo de seguida.

T&N – E não haverá espaço para fusões e aquisições, para parcerias?

António Dias – As pessoas deveriam estar mais abertas a discutir essas possibilidades. Mas isso só se pode aplicar a empresas saudáveis (é mais difícil encontrar parceiros para empresas em dificuldades). E quem está saudável nunca quer ceder uma parte a terceiros, ainda que seja numa troca de participações.

Creio que a tendência será para a redução do número de associados. Não sei quantificar, mas há-de haver, com certeza, uma diminuição. Porque não há trabalho para todos.

T&N – E ainda há espaço para haver transitários portugueses?

António Dias – Julgo que há espaço para entidades nacionais. Claro que as multinacionais estarão, à partida, mais preparadas para enfrentar estas dificuldades. No entanto há excelentes empresas só com capital português, e que conseguem viver de maneira muito salutar e racional.

Mas acho que o nosso futuro passa por encontrar parceiros, por juntar interesses comuns. Não será fácil. Porque somos muito individualistas. E porque muitos de nós estamos muito envolvidos no dia-a-dia da empresa, e não temos tempo nem para fazer reflexão estratégica nem para buscar essas soluções.

Mas estou certo que cada vez mais teremos de encontrar soluções fora daqui, cada vez mais teremos de apostar na internacionalização das nossas empresas.

T&N – Os desígnios nacionais de aumentar as exportações e de transformar Portugal numa porta de entrada/saída de mercadorias para a Europa são um bom “comboio” para os transitários apanharem e desenvolverem a actividade?

António Dias – Acho que é um “comboio” que já perdemos há muito tempo. Pelo menos o “comboio” da entrada e saída para a Europa. Não acredito muito nele. Temos é de nos especializar naquilo que é o nosso métier, nas importações e exportações nacionais. Porque as cargas em trânsito…

De facto, temos um bom exemplo em Sines, por força da acção da MSC. Mas isso não representa a operação normal em Portugal. O normal da operação assenta na carga produzida em Portugal e daqui exportada, e na carga importada para o País. Portugal não é um país com uma vocação de trânsito.

T&N – …

António Dias – Eu não tenho nada contra Sines. E também se faz alguma coisa de trânsito em Lisboa e mesmo em Leixões. Mas não podemos comparar-nos, por exemplo a Roterdão, Algeciras ou Tanger Med, mais recentemente.

Portugal fez tardiamente a aposta em Sines (porque os outros já estavam mais adiantados). E se é verdade que nunca é tarde, acho que isso não vai resolver nenhum problema em Portugal. É uma utopia pensar que o problema português dos transportes se resolve com umas cargas em trânsito, via Sines…

T&N – Então, não o fascina a ideia das potencialidades do alargamento do Canal do Panamá…

António Dias – Sou muito pragmático. É evidente que temos de ter uma visão para o futuro. Mas isso ainda é futurologia, embora as obras já estejam em execução.

Mas não me fascina. E não vejo que venhamos a usufruir de grandes volumes de carga a entrar – neste caso por Sines – para a Europa só porque estamos aqui mais próximos, entre aspas, da pseudo-entrada europeia. Estamos tão próximos como estão os outros países. Sendo que nós, só para chegarmos a Barcelona, temos de fazer 1 200 quilómetros. E isso representa um sobrecusto.

Mas dir-me-ão: e então Algeciras? É evidente que Algeciras está tão longe do Centro da Europa como está Sines. Mas Algeciras foi uma aposta da Maersk.

Se dermos condições para os grandes operadores virem para cá, óptimo. Mas eu pergunto: que mais-valia trazem as cargas em trânsito para Portugal? Ok, a nível mundial Sines começa a ser um porto conhecido, porque opera navios de grande tonelagem e com grande capacidade, mas em termos de mais-valias para o tecido empresarial em Portugal… acho que é uma utopia!

Os comentários estão encerrados.