A ANTROP está a negociar com o Governo apoios à liquidez das operadoras de transporte rodoviário de passageiros, avança ao TRANSPORTES & NEGÓCIOS o presidente da associação, Luís Cabaço Martins.

Com a procura em baixa e as receitas a pique, as empresas de transporte rodoviário de passageiros não poderão sobreviver sem a ajuda do Governo, avisa o presidente da ANTROP. As declarações ao TRANSPORTES & NEGÓCIOS foram recolhidas antes de serem conhecidos os recursos ao “lay-off” por várias operadoras. Mas o rápido evoluir dos acontecimentos só torna mais urgentes os alertas e os apelos de Luís Cabaço Martins.

Tal como está, e com tendência para agravar-se nos próximos meses, a situação ameaça a manutenção das empresas, do serviço público de transportes e, mesmo, a retoma da oferta quando o pior passar e os portugueses voltarem a precisar dos autocarros, vinca o presidente da ANTROP, em final de mandato.

T&N – Qual é a quebra estimada na procura e receitas, em resultado das medidas de contenção da Covid-19?

Luís Cabaço Martins – A redução drástica da procura de transportes rodoviários de passageiros já atingiu os cerca de 80% a 90%. Parece-nos, contudo, que deve ser destacado o seguinte: apesar desta quebra de procura, as transportadoras associadas da ANTROP continuam a disponibilizar um serviço público de transporte, de forma regular, embora adaptando as frequências ao volume de procura e também às directivas do Governo relativamente à lotação máxima permitidas dos autocarros.

Como seria de esperar, não havendo tanta procura de transporte rodoviário a validação de títulos de transporte e a bilheteira normal acabam por reflectir essa queda abrupta ao nível das receitas.

T&N- A situação só tenderá a piorar, até porque, apesar dos apelos das transportadoras, estará praticamente fora de causa a venda de passes nos tempos mais próximos, certo?

Luís Cabaço Martins – Todos os sinais neste momento apontam para a degradação da situação e certamente os meses de Abril e de Maio serão muito difíceis. Se o Governo não for sensível e não tomar medidas de apoio às transportadoras rodoviárias poderemos vir a ter uma situação catastrófica para o sector. E, mais grave, se chegarmos a um ponto de rotura dificilmente conseguiremos reagir atempadamente e da melhor forma quando a actual situação se normalizar e as pessoas voltarem a socorrer-se do transporte público para o seu dia-a-dia, seja profissional ou pessoal.

T&N – Já há empresas em rotura e à beira de encerrar?

Luís Cabaço Martins – O momento não é fácil e é natural que as empresas associadas tenham mecanismos diferentes de encarar a actual situação de crise. O que se pode dizer é que as empresas não podem continuar a operar se não tiverem receitas para o fazer.

T&N – Há algum mecanismo que compense as operadoras pelas perdas resultantes das medidas de contenção?

Luís Cabaço Martins – Estamos em conversas com o Governo, designadamente com o sr. Secretário de Estado da Mobilidade, e percebemos que há vontade em encontrar mecanismos que possam ajudar as empresas transportadoras rodoviárias a não interromper o serviço público que, todos os dias, estão a desenvolver.

O PART cobre menos de um terço do preço dos títulos de transporte e há mais de dois terços que são da responsabilidade dos operadores cobrar. Não havendo utentes (ou havendo poucos) essas hipotéticas receitas não são cobradas, mas a generalidade dos custos fixos mantém-se, como os salários, rendas e outros. É preciso arranjar rapidamente uma solução sob pena de algumas empresas encerrarem portas.

T&N – As medidas de apoio às empresas já anunciadas servem as necessidades do setor? Especificamente, o que é que gostariam de ter?

Luís Cabaço Martins – As empresas precisam fundamentalmente de liquidez, de apoio de tesouraria de curto prazo para fazer face à abrupta redução dos seus proveitos. Estamos a analisar as medidas de apoio às empresas até agora anunciadas, e algumas poderão vir a ser usadas pelas empresas nossas associadas.

T&N – O pagamento de dívidas seria, provavelmente, uma boa ajuda. Pode quantificar, em termos de grandeza, os valores que as várias autoridades deverão às empresas do sector?

Luís Cabaço Martins – Essa seria, certamente, uma boa decisão do Governo e aliviaria, no imediato, muitas empresas. Mas temos que pensar em ir mais longe, porque não sabemos quando a situação se irá normalizar. Para já sabemos que o impacto nas contas das empresas é muito forte, mas não é possível antecipar uma quantificação. Pode durar mais 1, 2 meses mas também pode ir a mais de seis meses. E o País não pode parar e as empresas de transporte têm que continuar a contribuir para que Portugal não pare.

T&N – Entretanto, decorrem importantes concursos para concessão de serviços. A ANTROP defende a sua suspensão?

Luís Cabaço Martins – Pensamos que todo este processo de contratualização deve ser repensado tendo em conta a excepcionalidade da situação que estamos a viver e os impactos que a mesma tem provocado no tecido empresarial.

T&N – Entretanto também, a ANTROP está em processo eleitoral. Mantém-se, ou vai ser adiado?

Luís Cabaço Martins – O processo eleitoral está em fase de conclusão. Muito em breve serão eleitos os corpos sociais da ANTROP para o próximo triénio.

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