Mário Vieira *

 

Revolucionar o pensamento de segurança dos Pilotos da Barra

 In memoriam do Comandante Miguel Pereira, Piloto do Porto de Lisboa, falecido no desempenho da sua missão. 

 

Nassim Taleb é alguém cuja relação com a Pilotagem ou a atividade portuária é virtualmente nula. No entanto, é muitíssimo mais citado em qualquer seminário ou conferência relacionados com o risco portuário do que o mais experimentado profissional da área.

Taleb teve um percurso de sucesso como analista financeiro e hedgefund manager antes de se aventurar no mundo da escrita com o best-seller “The Black Swan”. Embora o autor não tivesse a mínima relação com o mundo marítimo, não deixa de ser curioso que, na obra referida, cite enfaticamente um dos mais mediáticos Comandantes da Marinha Mercante de todo o século XX, E. J. Smith.

Em 1907, o Comandante Smith – que atingiria o pico da notoriedade no filme protagonizado por Dicaprio e Winslet, um século após a sua trágica morte -, terá comentado: “Em toda a minha experiência, nunca estive envolvido num acidente de qualquer tipo que valha minimamente a pena mencionar. Apenas vi um navio em perigo, em todos estes anos passados no mar. Nunca vi um navio encalhado e jamais encalhei com o meu navio. Tampouco estive minimamente envolvido num acontecimento em que, em qualquer momento, ocorresse uma ameaça real que pudesse escalar para um desastre de qualquer tipo.”

Debrucemo-nos agora sobre o que atualmente consideramos, em termos de conceito, um “cisne negro”: um acontecimento imprevisível, de enorme impacto, que retrospetivamente consideramos ter sido possível prever. Onde residiria então a dificuldade em estabelecer tal previsão? Tão somente em basearmos o nosso raciocínio na experiência passada e apenas no que é conhecido.

Durante séculos, considerou-se que os cisnes seriam única e exclusivamente brancos, tendo a cor e o animal se tornado simbióticos e indissociáveis. Foi necessário que os primeiros navegadores chegassem à Austrália e se deparassem com cisnes negros para assim se desconstruir uma crença até aí comum a toda a humanidade.

Em 2006, ano lembrado como trágico pelos Pilotos da Barra devido ao elevado número de profissionais falecidos no exercício da sua missão, o Governo da Austrália (país onde curiosamente não se verificou nenhum acidente) encomendou a uma reputada especialista em ergonomia, Fiona Weigall, um estudo sobre a transferência dos Pilotos dos navios para as lanchas e vice-versa, com o objetivo de investigar possíveis alternativas mais seguras de proceder a essa operação ou, no mínimo, melhorar as condições existentes.

Nesse estudo, o principal fator de risco para a queda ao mar revelou-se ser “Working on night or evening shift”. Sintomático…

Dois anos mais tarde, num novo estudo encomendado pela Associação de Pilotos Marítimos Australianos, a mesma especialista apontava como principais medidas de mitigação dos riscos inerentes à transferência lancha-navio-lancha, a utilização de Equipamento de Proteção Individual adequado, como casacos/coletes salva-vidas autoinsufláveis, de elevada visibilidade, munidos de strobelights de disparo automático e de equipamentos de localização pessoal (personal locator beacons).

Nos últimos 10 anos, os principais construtores de lanchas de pilotos aperfeiçoaram o design das mesmas, reduziram ao máximo o contacto da lancha com a escada para minimizar o risco de queda, multiplicaram as superestruturas com o fim de facilitar o embarque e desembarque, e desenvolveram plataformas de movimentação hidráulica, ergonómicas e de fácil acesso, para resgate de pilotos (ou outros) que possam cair à água.

Os sistemas de localização pessoal evoluíram para o SART AIS, que possibilita que mesmo uma embarcação de pesca com mais de 12 metros detete e localize alguém que caia à água com esses equipamentos, e passaram a incorporar um sistema GPS suscetível de indicar a posição do náufrago, retransmitida na frequência de socorro aeromaritima de 121,5 Mhz.

Muitas organizações que prestam serviços de Pilotagem, sobretudo em portos com maior massa crítica, passaram a privilegiar o helicóptero como meio preferencial de embarque e desembarque do Piloto. Na maior parte do mundo, a evolução dos sistemas de Gestão de Segurança pressupôs que a avaliação formal de riscos passasse a considerar o risco de queda do Piloto como de elevada severidade e grande probabilidade, preconizando-se uma série de medidas de controlo e mitigação que passam pelo estabelecimento de procedimentos adequados, a clara definição de limites operacionais (prevenção) e o aperfeiçoamento e agilização das respostas de emergência.

Cientes de que o resgate de alguém que caia à água continua a ser uma tarefa delicada, sobretudo em situações de mau tempo, algumas organizações de Pilotos decidiram mesmo proceder a simulacros de salvamento com periodicidade mensal, investindo na formação dos tripulantes das lanchas para operações de resgate.

Tal como no cisne negro de Pedrogão, no de Lisboa não faltaram generosidade e abnegação por parte de todos os envolvidos no resgate. Como Piloto da Barra, presto-lhes aqui o meu tributo e o meu mais profundo agradecimento. Quero crer que o seu desespero perante o desenlace foi incomensuravelmente maior que o sentimento de revolta com que escrevo este artigo.

Na sua mais recente obra: “Skin in the game – hidden asymmetries in daily life”, Taleb chama a atenção para um detalhe comum a todos os acontecimentos trágicos e imprevisíveis das últimas décadas: os responsáveis pelas principais decisões (ou quem se demitiu de as tomar) que desembocaram nestas ocorrências, não foram minimamente afetados pelas consequências dos mesmos (com a exceção, que confirma a regra, do Cte. Smith).

Na passagem que mais me impressionou de outra das suas obras, “Antifragile”, Taleb declara que um sistema robusto, em termos de Gestão de Risco, nunca é suficientemente robusto, e propõe a ideia de anti fragilidade, defendendo que a inovação (tecnológica e de procedimentos) é a melhor e mais eficaz resposta para a anti fragilidade, através da coragem de assumir riscos, fazendo permanentes ajustes e não temendo o ciclo virtuoso da tentativa e erro na fase de experimentação. Quantas plataformas hidráulicas de recolha de náufragos terão falhado em testes de laboratório e em testes com modelos? Se a experiência passada e o conhecimento existente se revelam claramente insuficientes para prever (e, pior ainda, prevenir) a ocorrência de acontecimentos com a dimensão de cisnes negros, então a Investigação e Desenvolvimento são a única solução de que dispomos, como se prova pelas respostas encontradas no pós-2006.

Os grandes obreiros da revolução anti fragilidade terão de ser os “thinkerers”, os que fazem os ajustes, que corrigem, que propõem alternativas, que têm necessariamente “Skin in the game”- os Pilotos da Barra. Carecem de “empowerment” e de um ambiente criativo e estimulador do pensamento crítico, que são incompatíveis com a imobilidade e ausência de alternativas ao Fordismo. Apesar de tantas referências à industry 4.0, continuam limitados por um ambiente organizacional caraterístico dos primórdios da industry 2.0.

Taleb é necessariamente polémico e agitador. Mas só uma profunda agitação do pensamento nos pode trazer as soluções (que outros já encontraram) para tornar os nossos Sistemas de Gestão de Segurança anti frágeis… e talvez mesmo salvar vidas.

Há alguns anos, citei numa conferência uma frase do emérito James Reason “Se a eterna vigilância é o preço da liberdade, a eterna inquietude é o preço da segurança”. Hoje recorro a Taleb para citar “A anti fragilidade é o único antídoto para os cisnes negros”

Nos portos portugueses, continuámos, até agora, a acreditar que apenas existem cisnes brancos… e essa passividade poderá ter tido um preço demasiado elevado.

* Capitão da Marinha Mercante | Presidente da Comissão Técnica da Apibarra (Associação dos Pilotos de Barras e Portos)

Apontamentos bliográficos

Reason, James (1997), “Managing the Risks of Organizational Accidents”, England, Ashgate Publishing Ltd

Weigall, Fiona (2006) “Marine Pilot Transfers”, Australia, Australian Transport Safety Bureau

Weigall, Fiona (2008)” Part 4: PFDs, wet weather jackets &PLBs), Australia, Health & Safety Matters Pty Ltd

Taleb, Nassim (2007), “The Black Swan”, United States, Random House

Taleb, Nassim (2012), “Antifragile”, United States, Random House

Taleb, Nassim (2018), “Skin in the game”, United States, Random House

 

 

 

 

 

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