A estratégia do Estado para os transportes, ou a falta dela; a capacidade de tomar decisões em tempo, ou a sua ausência; os benefícios, ou os malefícios do investimento público; o equilíbrio entre os modos de transporte, foram temas falados na conferência “A Mobilidade e as pessoas”, promovida em Lisboa pelo Grupo de Trabalho dos Transportes e da Mobilidade da SEDES. O TRANSPORTES & NEGÓCIOS foi Media Partner.

O empresário Henrique Neto deu o mote para a reflexão ao consideras que “perdemos 20 anos em termos de transportes porque nunca tivemos uma estratégia. Todos os investimentos que foram feitos nas últimas duas décadas foram feitos na óptica da obra pública. Investimos quase tudo no transporte rodoviário, quando já há 30 anos se tinha percebido na Europa que o transporte rodoviário ia ter problemas”.

“Se quisermos continuar a ser um país europeu, os transportes são uma prioridade”, acrescentou o empresário. Para logo alertar que “a linha férrea entre Sines e Madrid pode ser irrelevante do ponto de vista económico” desde que seja vista numa perspectiva de transhipment, e que, neste momento, em Portugal, “Sines é único argumento de atracção do investimento estrangeiro”.

António Ramalho, presidente da Estradas de Portugal, referiu que não obstante o automóvel ser responsável por 96% das emissões poluentes dos transportes e por 60% das emissões globais de dióxido de carbono, nos últimos anos registaram-se grandes avanços na redução de consumo de combustível na indústria automóvel e, consequentemente, na redução de emissões dos novos veículos, o que o leva a acreditar que “a evolução tecnológica, a prazo, vai reabilitar o modo rodoviário”.

Luís Cabaço Martins, presidente da ANTROP, queixou-se sobretudo dum “défice de decisão” dos actores políticos “nos momentos cruciais”, questionando que “temos de tomar uma decisão sobre que transporte público queremos ter em Portugal?”, até porque para este dirigente associativo o “papel do Estado” continua por definir.

Outra das suas grandes preocupações, prende-se com a falta “de fiscalização em Portugal”, o que faz com inúmeras ilegalidades proliferem, nomeadamente, toda a espécie de transportes clandestinos.

Ana Paula Vitorino, deputada do PS e ex-secretária de Estado dos Transportes, não poupou criticas ao actual Governo: “passámos duma lógica em que tinha de ser tudo do melhor e do mais caro, em que a banca se ia oferecendo ferozmente para financiar tudo, para a diabolização do papel do Estado e do investimento público”.

E disparou: “os mesmos que reclamavam para se fazer tudo, agora criticam aquilo que se fez. Há 10 anos só se falava dos benefícios para as gerações futuras, agora só se fala em encargos para as gerações futuras”.

A ex-governante considerou, portanto, que “entre o modelo “o pai é rico” e o modelo “o pai faliu””, terá de ser encontrado um equilíbrio. E no decurso do debate sustentou que “aquilo que o Estado vai pagar em indemnizações no troço de Alta Velocidade que já estava adjudicado [Poceirão-Caia], é superior à fatia de investimento que cabia ao Estado” na construção desse mesmo troço.

Walter Rodrigues, professor universitário e especialista em sociologia urbana, falou da importância da mobilidade na história da humanidade e da “importância que a mobilidade tem na própria globalização”.

“A Mobilidade e as Pessoas” foi a primeira sessão de um ciclo de quatro conferências que o Grupo de Trabalho dos Transportes e da Mobilidade da SEDES, recentemente criado, se propõe organizar este ano. O TRANSPORTES & NEGÓCIOS apoia a iniciativa na condição de Media Partner.

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