Os operadores que importaram combustíveis ilegalmente devem ao Estado 66 milhões de euros por transacções entre 2013 e 2017, segundo um estudo a que a “Lusa” teve acesso.

Combustíveis: importações ilegais lesam Estado

 

Em causa estão empresas que compraram combustíveis em Espanha – com impostos e taxa de incorporação de biocombustíveis mais baixos do que os praticados em Portugal – como se fossem para ser vendidos no mercado espanhol, mas que acabaram por ser transportados, por via terrestre, para Portugal.

No estudo sobre irregularidades na entrada de combustíveis em Portugal, realizado pelo grupo de trabalho criado pelo Governo, lê-se que “estão actualmente em dívida cerca de 66 milhões de euros referentes a compensações
acumuladas pelo não pagamento das […] obrigações de incorporação, sendo este o défice de TdBs [títulos de biocombustíveis] apurado entre 2013 e 2017”.

Estas obrigações são relativas ao Fundo Ambiental ao Fundo de Eficiência Energética.

“Neste período, esta dívida aumentou em média cerca de 103,3% ao ano”, acrescenta o documento, que teve por base uma análise feita pelas secretarias de Estado da Energia e dos Assuntos Fiscais, pela Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis (ENMC) e pela Autoridade Tributária e Aduaneira.

“Sem prejuízo de outros factores […] o incumprimento do regime da incorporação e sustentabilidade dos biocombustíveis permite que os operadores incumpridores possam praticar preços mais baixos desvirtuando a concorrência no mercado”, apontam as entidades no documento, explicando que, por esta razão, “estes
operadores aumentaram significativamente a sua quota de mercado nas introduções ao consumo em volume entre 2012 e 2017, que em conjunto atingiram respectivamente cerca de 127 mil toneladas no gasóleo e 31 mil toneladas na gasolina”.

Quota de mercado quintuplica

Assim, e “pese embora os cinco principais operadores do mercado ainda mantenham uma posição dominante com uma quota em volume de cerca de 96,7% das introduções globais ao consumo de gasóleo e gasolina em 2017, os operadores incumpridores viram a sua quota crescer de cerca de 0,5% em 2012 para cerca de 2,7% em 2017”,
precisam.

Verificou-se, assim, que estas empresas – cujo número não é especificado – levaram à “perda de receita para o Estado”, promoveram a “concorrência desleal no mercado” e incumpriram também em “critérios de sustentabilidade, com impossibilidade de contabilização do biocombustível incorporado no cumprimento
das metas nacionais de renováveis”.

“Esta situação tem permitido que um conjunto de operadores económicos incumpridores se tenham mantido no mercado e que, em função das vantagens competitivas que obtêm com a poupança de custos pelo não cumprimento das metas de incorporação nacionais obrigatórias, tenham aumentado as suas introduções ao
consumo em volume com um valor médio de 39% no gasóleo e de 68,6% para a gasolina entre 2012 e 2017”, indica o documento.

Acresce que, entre estes anos, “o mercado aumentou numa média anual de 1,2% para o gasóleo tendo mesmo decrescido 1,3% para a gasolina”.

Para justificar a falta de incorporação dos biocombustíveis, o grupo de trabalho aponta problemas como a “falta de controlo sobre as operações e quantidades”.

Em Janeiro deste ano, o Estado português colocou em tribunal cinco empresas que importaram gasóleo de Espanha sem ser declarado, exigindo 48 milhões de euros em compensações pela “falta reiterada de pagamento” da incorporação dos biocombustíveis, desde 2015.

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