A Comissão Europeia deverá mesmo chumbar a fusão entre a alemã Siemens e a francesa Alstom, inviabilizando a criação de um “campeão” europeu capaz de concorrer com a chinesa CRRC.

A não ser que haja um volte-face de última hora, Bruxelas impedirá a fusão, em nome da defesa da concorrência, ameaçada que seria pela enorme quota de mercado conjunta que as duas companhias têm (mais de 50% em quase todos os países europeus e, em alguns, até 80%) e a pouca vontade de fazerem concessões.

A iminente decisão levou a um confronto sem precedentes entre a Comissária Europeia para a Concorrência, Margrethe Vestager, e as duas companhias, especialmente a alemã. Mas Vestager também irritou os governos de Ângela Merkel e Emmanuel Macron, defensores da criação de uma grande empresa franco-alemã que domine o sector.

De tal maneira que Alemanha e França esperam que o veto leve a uma reforma profunda da política de concorrência europeia.

O ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, avisou já que a Comissão que “cometerá um grande erro” se proibir a fusão. “Não será simplesmente um erro económico, mas também político, que enfraquecerá toda a indústria europeia face à China”, afirmou.

Joe Kaeser, CEO da Siemens e um dos arquitectos da fusão, insurgiu-se contra os que afirma serem “tecnocratas que [só] olham para o passado”. Kaeser também mostrou indignação através de sua conta no Twitter e acusou os funcionários europeus de “agirem correctamente do ponto de vista técnico, mas fazer tudo o que é errado para a Europa”.

“Deve ser a primeira vez que alguém reconhece que o trabalho do departamento de Concorrência da Comissão actua correctamente do ponto de vista técnico”, rebateu, na mesma plataforma o economista-chefe do departamento de Concorrência, Tommaso Valletti.

A Comissão Europeia atenta nas questões da concorrência dentro do espaço europeu. Os seus críticos, porém, defendem que as coisas sejam analisadas no contexto mundial.

Na verdade, se Siemens e Alstom detêm uma quota de 50% do mercado europeu de Alta Velocidade, a sua posição cai para apenas 10% quando se olha para o mercado mundial, onde a chinesa CRRC vale 71%, de acordo com dados coligidos pela Bloomberg.

O CEO da Siemens não está, por isso, sozinho quando ataca os “tecnocratas” europeus, ciosos dos seus regulamentos. Alemanha e França querem que os políticos retomem o controlo da situação e criem condições para que a Europa não perca o protagonismo mundial.

 

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