Os riscos do isolamento ferroviário de Portugal face à Europa vão ser discutidos amanhã na Ordem dos Engenheiros, em Lisboa. O Presidente da República e o ministro do Planeamento e das Infraestruturas estão presentes.

 

A iniciativa do debate sobre “A solução ferroviária” é dos subscritores do manifesto “Portugal – Uma ilha ferroviária na União Europeia”, lançado no ano passado, e que tem entre os seus promotores o ex-ministro Mira Amaral, o ex-deputado Henrique Neto, e o ex-presidente da Adfersit Mário Lopes.

O encontro acontece a poucos dias de serem oficialmente lançadas algumas das obras emblemáticas do programa Ferrovia 2020. Que não satisfaz os promotores.

À “Lusa”,  Mira Amaral explicou que o manifesto “tenta chamar a atenção da opinião pública, em geral, e das pessoas
mais ligadas ao sector ferroviário, em particular, para o facto de Portugal se arriscar a ficar uma ilha ferroviária no contexto europeu”.

Isto porque, argumentou, “Espanha está a modernizar a sua rede ferroviária introduzindo a bitola europeia” e
“Portugal nada fez ou nada está a fazer nessa matéria”.

“Portanto, chegará o momento em que os espanhóis têm uma rede de bitola europeia moderna que se liga à Europa e nós ficamos aqui na ponta da Europa isolados naquilo a que chamamos a ilha ferroviária”, continuou o ex-ministro.

Mira Amaral disse que tal terá implicação no transporte das mercadorias em Portugal, tendo em conta que 70% das exportações vão para o centro europeu.

“A isso chama-se na economia aumentar os custos de transacção para a economia portuguesa, consideramos que há aqui uma questão óbvia de competitividade para as empresas portuguesas que não está a ser acautelada”, sublinhou o ex-ministro.

Mira Amaral referiu que o documento, subscrito por perto de 40 pessoas, entre os quais os empresários Henrique Neto e Patrick Monteiro de Barros, tenta “chamar a atenção para que é necessário também investir na modernização” da linha ferroviária.

“E, já que vamos investir nessa modernização, então devemos fazê-lo, como é óbvio, em bitola europeia para termos perfeita interoperabilidade com a rede espanhola. Foram estas motivações do manifesto”, disse, adiantando que tal foi apresentado ao Presidente da República, que se manifestou disponível para encerrar a conferência “A Solução Ferroviária”, amanhã.

Questionado sobre o compromisso dos Estados-membros da União Europeia em construírem os eixos principais nacionais do Corredor Atlântico em bitola europeia até 2030, Mira Amaral apontou que os projectos têm de ser pensados.

“Estas coisas levam tempo, têm de se fazer projectos”, depois é preciso ter financiamento e construir e “o que vemos é uma total inacção nessa matéria. Estamos muito preocupados com a inacção do Governo português”, afirmou.

“Se começássemos imediatamente, acho que ainda conseguiríamos atingir esse objectivo, o problema como sabe é que o primeiro-ministro português declarou que este era um assunto tabu. Em democracia, que eu saiba, não há tabus, tudo deve ser discutido, é isso que nós queremos discutir sem tabus”, disse Mira Amaral, afirmando esperar que a presença do chefe do Estado na conferência permita que o assunto seja debatido.

Por sua vez, Luís Cabral da Silva, subscritor do manifesto, engenheiro e especialista em transportes, adiantou que Portugal tem de saber aproveitar os quadros comunitários de apoio, apontando que actualmente o país está no meio de um e nem sequer se candidatou no âmbito da ferrovia.

“Para cumprir o prazo de 2030 para completar a rede principal – Corredor Atlântico – temos de nos encaixar no próximo quadro comunitário (2021-2027), só que o dinheiro não aparece só por milagre. Temos que primeiro apresentar projectos credíveis”, disse, acrescentando que “só há um projecto” que actualmente “pode ser posto à aprovação”, que é o Poceirão-Caia.

Mário Ribeiro, engenheiro e subscritor do manifesto, considerou, por sua vez, que Portugal ainda terá “uma hipótese” com uma ligação internacional de Alta Velocidade para tráfego misto.

“A única ligação que temos é o chamado corredor internacional sul, que vai de Sines/Lisboa, Poceirão, Badajoz, Madrid, Paris e por aí fora”, considerou, salientado que se o país abandonar o investimento da actual Ferrovia 2020, que mantém a linha em bitola ibérica, e se “concentrasse neste troço internacional (…)”, então “há uma hipótese de ligação à Europa”.

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