Na sua primeira entrevista enquanto presidente da Direcção da Agepor, Óscar Burmester falou ao TRANSPORTES & NEGÓCIOS do presente e do futuro da actividade. O optimismo, temperado com uma boa dose de pragmatismo é a nota dominante do discurso.

T&N – Quis o destino, como disse, que tomasse posse num momento particularmente difícil para a actividade marítimo-portuária. Que leitura faz da greve dos trabalhadores portuários, para mais adivinhando-se mais conflitualidade no futuro próximo?

OB – É um momento crítico. E sê-lo-á tanto mais quanto mais se prolongar no tempo. Até agora o impacte não terá sido ainda tão grande quanto se fez passar na Comunicação Social, mas a verdade é que com o passar dos dias os efeitos sobem exponencialmente.

Ainda assim, estou optimista, porque há alguns sinais de que talvez se consiga uma solução; talvez seja uma oportunidade para se conseguir, finalmente, modernizar a área laboral portuária, que ficou parada durante demasiado tempo.

T&N – O Governo assumiu o compromisso de alterar, quer o modelo de governação dos portos, quer a gestão da mão-de-obra portuária. Visto o que resultou do caso da ETP de Aveiro, acha que este é o momento para mexer nas coisas?

OB – De certa maneira, são os nossos credores quem define o ritmo das reformas. O que é importante realçar, é que não me parece razoável que determinado sector da nossa economia possa não ser afectado pelas reformas estruturais que estão a acontecer. É natural que o Governo queira avançar transversalmente à economia. E, nessa medida, penso que será inevitável mexer no sector.

T&N – As exportações são apontadas como a tábua de salvação da economia nacional. Os agentes de navegação têm um papel determinante a desempenhar, nesse esforço de fomentar, e facilitar, as exportações?

OB – Sem dúvida. Têm um papel importante, em duas vertentes.

Por um lado, os agentes de navegação tentam identificar potenciais clientes, agentes económicos sediados no território nacional que se preparem para iniciar exportações, em particular para fora da União Europeia, para o que o transporte marítimo é um meio preferencial.

Por outro lado, os agentes de navegação tentam atrair companhias de navegação, operadores marítimos e afretadores que tragam os seus navios aos portos portugueses, para fazer escoar os produtos nacionais.

Evidentemente, esse trabalho é complementado e integrado com o de outras entidades que intervêm na cadeia logística, como sejam os portos, os operadores portuários, os concessionários, etc..

T&N – Muito se tem falado nas ligações ferroviárias de mercadorias a Espanha e à Europa. Concorda com a opção?

OB – Ligações ferroviárias do hinterland ibérico aos portos nacionais só podem beneficiar os portos e o transporte marítimo. E acima de tudo permitirão aos agentes económicos colocarem os seus produtos de uma forma mais competitiva, mais rapidamente.

Desse ponto de vista, trata-se de um investimento com enormes vantagens. Outra questão é saber se o esforço que isso implica estará, ou não, em linha com as vantagens daí retiradas.

T&N – Igualmente muito se tem escrito e dito sobre os impactes positivos do alargamento do canal do Panamá nos portos nacionais, e em particular em Sines. Do ponto de vista dos armadores/operadores, será mesmo assim?

OB – Vivemos num mundo muito dinâmico, e portanto é positivo que os portos – e os empresários desta área – estejam atentos e analisem cuidadosamente os efeitos que terá o alargamento do canal do Panamá.

No caso dos portos portugueses, e em particular de Sines, a verdade é que não se conhece ainda a estratégia dos armadores, pelo que neste momento não é ainda possível dizer-se se o “novo” canal do Panamá irá ou não ter um efeito positivo.

T&N – Tempos houve, provavelmente porque o mercado estava em alta, em que armadores se instalaram directamente no mercado nacional, com isso retirando negócio aos agentes de navegação. Hoje o momento já não será tão bom. As vossas empresas como é que estão?

OB – O agente de navegação exerce actividade em vários segmentos de mercado. Há segmentos de mercado onde os agentes não sentiram essa evolução, e onde continuam a ter o seu papel. Refiro-me concretamente às escalas dos navios contratados à viagem.

A questão coloca-se mais nas companhias de serviço regular, que costumavam ter um agente em Portugal e que optaram por abrir o seu próprio escritório. Essa evolução ocorreu nos últimos dez anos. Não existem ainda sinais de que possa haver uma inversão da tendência. Mas abrandou. E também são conhecidos alguns casos em que os armadores que se sediaram em Portugal não tiveram o sucesso que esperariam. Por isso, é bom que os agentes de navegação se mantenham atentos a uma possível inversão nessa política.

O que é importante realçar é que em alguns segmentos, felizmente, essa evolução não existe e, logo, não constitui problema para os agentes de navegação.

T&N – As empresas do sector continuam, assim, a ser saudáveis, bem estruturadas e dimensionadas?

OB – Exactamente. As empresas modernizaram-se. O nosso negócio é hoje um negócio electrónico, com ligações de telemática à maior parte dos parceiros. Por isso, vejo com muito optimismo o futuro dos agentes de navegação em Portugal.

T&N – O seu mandato é de três anos. Que objectivos persegue, que marcas gostaria de deixar?

OB – Vamos prosseguir na modernização da própria associação, com vista a sermos mais eficazes e a prestarmos um maior e melhor apoio aos nossos associados. E, por outro lado, vamos continuar a trabalhar com as entidades com que nos relacionamos no dia-a-dia, no sentido de mantermos o nosso estatuto de parceiro importante e imparcial, com uma opinião própria e equilibrada entre os interesses dos armadores e das companhias de navegação, por um lado, e os interesses dos agentes económicos que utilizam o transporte por via marítima.

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