Reinício ou a ressureição de 2020

Era evitável da minha parte, mas é quase inevitável falar, não do “novo normal”, não gosto da expressão, mas de um reinício ou de uma ressurreição e de que forma de vida vamos adotar para o futuro.
 

Ressurreição porque também ao fim do terceiro mês, não dia, percebemos que estamos, eventualmente, num mundo diferente, com perspetivas distintas, com decisões que muitos de nós teorizavam, mas apenas poucos praticavam.

Já era notório o crescimento e a necessidade de apostar em mais digitalização e informatização, tendo em vista mais desmaterialização, mais celeridade e eficiência. Neste reinício, fica ainda mais clara a necessidade de fazer esse caminho. Recentemente soube-se que o transporte marítimo pode poupar 4,5 mil milhões de euros por ano se 50% das companhias adotarem o e-bill of lading (e-BL). Quando muitas delas vão recorrer a empréstimos dos respetivos estados, porque não?

Passando da água para o ar, verificamos que o panorama é ainda mais negro. Há companhias que nunca olharam para a carga, e nesta pandemia acabou por ser a carga o balão de oxigénio de algumas delas.

E quando aterramos percebemos que, finalmente, a UE defende uma nova geração assente em mobilidade e sustentabilidade, mais solidária e global, mais digital e mais amiga do ambiente.

Foi preciso uma pandemia para se perceber? Parece que sim.

Adicionalmente a UE propõe “tapar o buraco” com novos impostos. Mais uma vez, os transportes serão o caminho escolhido com a aposta numa “extensão” da tributação sobre as emissões aos “sectores marítimo e da aviação”, um “novo recurso”, dizem, que deverá ser capaz de originar 10 mil milhões de euros por ano.

“… volto à tecla batida da necessidade de Portugal repensar toda uma estratégia para as mercadorias, assente numa Rede de Terminais, Marítimos e Portos Secos, apoiados por Plataformas Logísticas com todos os serviços associados e numa Rede Ferroviária eficaz e eficiente…”

Chegados aos modos terrestres, agora já com os pés assentes em terra, vemos que a UE autoriza, leram bem, AUTORIZA que alguns países façam investimentos avultados no incremento do modal shift, ou seja, mais intermodalidade, ou o que batizei de 5.º modo de transporte. Espanha acaba de viabilizar o terminal rodo/ferroviário de Badajoz, porto seco que até deverá ficar ligado à nossa JUL, apoiando assim as transferências de carga para a ferrovia, aproximando a Extremadura do mar e tornando os Portos Portugueses a porta de saída de muitos produtos aí produzidos. Como já me devem ter lido algumas vezes, será o melhor “terminal Português” dos últimos 20 anos.

Se o mar é o caminho mais eficiente para longuíssimas distâncias, é depois um modo de transporte pesado associado ao Porto marítimo que ajuda ao desenvolvimento e crescimento do seu hinterland. Sendo assim, porque não se pensa num modelo diferente para os Portos, permitindo que estes participem, por exemplo, na gestão de Portos Secos?

Revisitando alguns escritos meus, volto à tecla batida da necessidade de Portugal repensar toda uma estratégia para as mercadorias, assente numa Rede de Terminais, Marítimos e Portos Secos, apoiados por Plataformas Logísticas com todos os serviços associados e numa Rede Ferroviária eficaz e eficiente em vez de remendada e “troncada”, pois a que temos assenta num “tronco” vertical com dois/três “ramos” fronteiriços.

Não devemos deixar nas mãos de apenas algumas empresas o interesse que é do País de ter este sistema de redes. Não porque o façam melhor ou pior, mas porque, naturalmente, colocam em primeira necessidade as suas estratégias individuais, mais do que uma estratégia nacional.

Estas redes, ambas, precisam de ser pensadas e apoiadas pelo Estado, porque só o Estado tem capacidade para criar soluções e proporcionar a coesão nacional, aproximando em tempo o interior do litoral, o norte do sul e, assim, fazendo chegar nas mesmas condições os bens e mercadorias necessárias a todos, sem quaisquer regionalismos ou assimetrias. Entendo que é tempo para que o governo comece a liderar nestas matérias, ainda que posteriormente se volte à questão do que será público ou privado, pois parece-me que é este “esoterismo” mental que não permite que se chegue a bom destino por bons caminhos.

Esses caminhos seriam igualmente o melhor caminho para o 5.º modo de transporte – Intermodalidade – ou até, com mais aposta em digitalização e informatização, a Sincromodalidade.

Entendo que é este o momento de pensar nesta estratégia de redes, até porque quantos mais utilizadores elas tiverem, mais eficientes se tornam. Mas só se tornam mais eficientes se prestarem bons serviços. Esta seria uma solução capaz de corrigir algumas das bases da nossa economia, nomeadamente no que diz respeito ao apoio às empresas exportadoras, em vez de continuar a proporcionar meros cuidados paliativos assentes em soluções imediatas ou de curto prazo.

O transporte é um fator de competitividade muito relevante para as empresas, por isso mesmo tem de ser otimizado ao máximo.

Jesus Cristo ressuscitou ao 3.º dia.

Ressuscitará a economia ao 3.º mês?

A verdade é que nunca houve tanto dinheiro a chegar a Portugal.