A Renault começou, esta semana, a testar em condições reais,  no Porto Santo, veículos eléctricos que não só recebem fornecem energia à rede.

A ilha madeirense torna-se, assim, num dos primeiros pontos mundiais a usar automóveis eléctricos V2G (sigla em inglês para veículo para a rede), que permitem, além de receber energia, colocar energia na rede pública ou em outro veículo em corrente alternada (AC).

Até agora, já há casos de carregamento V2G em corrente contínua (DC), mas o AC tem custos de carregadores mais baixos e apresenta maior compatibilidade técnica com os fornecedores de energia.

O projecto Porto Santo Smart Fossil Free Island arrancou em 2018, com a Renault, a tecnológica The Mobility House e a Empresa de Electricidade da Madeira (EEM), com o apoio do Governo Regional do arquipélago.

A The Mobility House é, precisamente, a responsável pela gestão do processo que permite a injecção de energia eléctrica na rede aquando dos picos de consumo e que foi responsável pela primeira demonstração no Porto Santo, feita na manhã de ontem.

Na base do projecto de mobilidade está a interacção entre os automóveis eléctricos da Renault, o carregamento inteligente (feito em função das necessidades do utilizador e da electricidade disponível na rede), a segunda vida das baterias eléctricas de veículos eléctricos Renault (que permitirá armazenar a energia estacionária) e a reversão do carregamento V2G.

O projecto arrancou no ano passado, com 20 veículos eléctricos da marca (14 ZOE e de seis Kangoo), que representam 2% do parque circulante na ilha. O objectivo até ao fim do próximo ano é atingir 120 veículos eléctricos (12% do parque) e chegar, depois de 2020, às 500 unidades em Porto Santo, cerca de 50% do parque circulante médio.

“Não é só nos slides. Está a acontecer mesmo”, realçou o director do programa de veículos eléctricos e novos negócios do grupo Renault, Eric Feunteun, na apresentação do carregamento bidireccional.

“As ilhas da Madeira e do Porto Santo foram descobertas há 600 anos e daí se partiu para uma epopeia de Descobertas. Voltamos, agora, para abrir um novo caminho ambiental”, salientou Patrícia Dantas, vice-presidente do Governo Regional da Madeira com o pelouro da Economia. “Além da perspectiva económica [baixa a factura energética], este projecto insere-se, também, numa perspectiva de sustentabilidade do Porto Santo enquanto destino turístico”, acrescenta.

O CEO da EEM, Rui Rebelo, não tem dúvidas que a ilha “tem tudo para ser uma montra a nível mundial. Primeiro, para a Madeira e, depois, para regiões semelhantes de outros países”.

Com efeito, já há projectos-piloto similares em ilhas de França e do Índico e em ecossistemas empresariais, de acordo com Eric Feunteun. E há interesse em conhecer o que está a ser posto em prática no Porto Santos de outros destinos. Thomas Raffeiner, CEO e fundador da The Mobility House, é quem o afirma. “Temos falado em todo o mundo sobre o caso do Porto Santo. O presidente da câmara de Honolulu [Hawai] mostrou-me interesse em ver este projecto ao vivo. Vão receber muitos visitantes nos próximos tempos aqui”, avisou.

Objetivos de energias renováveis

O Porto Santo Smart Fossil Free Island é um projecto abrangente de sustentabilidade em que a mobilidade eléctrica é essencial, mas que faz parte de um plano mais amplo para reduzir as dependências de combustíveis fósseis e as emissões de CO2.

Assim, é objectivo para a próxima década atingir 80% de veículos eléctricos e 80% de produção de energia a partir de fontes renováveis (a ilha não tem hidroeléctricas, pelo que as energias renováveis são sempre uma demanda mais difícil).

Porto Santo tem, no presente, 16% da energia produzida a partir das renováveis e pretende atingir 25% já em 2020. A meta até 2025 é de 60%. A segunda vida das baterias eléctricas de veículos eléctricos Renault terá um papel importante no armazenamento e introdução na rede da energia produzida a partir de fontes renováveis. Thomas Raffeiner indica que, nas estações de armazenamento, as baterias em segunda vida são “virtualmente eternas”.

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