À partida, uma comparação entre Sines e Los Angeles parece despropositada. Porém, uma visita recente veio revelar que as semelhanças são mais fortes do que se imagina, não obstante a enorme diferença de escala.

Mais do que Roterdão, frequentemente apontada como exemplo, Los Angeles (LA) é a melhor referência para o modelo de desenvolvimento de Sines.

Senão vejamos:

i ) Localização continental:

Sines e LA têm localizações geoestratégicas semelhantes, no extremo Sudoeste de dois continentes onde o comércio marítimo com o Extremo Oriente é um fator preponderante nas respetivas economias. Adicionalmente, Sines é o porto europeu mais próximo de LA, através do Canal do Panamá.

As estatísticas de LA são estratosféricas: US$ 460 bi de comércio externo, mais do dobro do PIB português. Em 2018, o movimento de contentores atingiu 9,5 M TEU que, combinado com o porto adjacente de Long Beach com 8,1 M TEU, totaliza 17,6 M TEU, cerca de 20% acima de Roterdão. 80% do comércio marítimo é com o Extremo Oriente, onde sobressai a China, responsável por mais de metade.

No lado negativo, LA regista um forte desequilíbrio entre importações e exportações, de que resulta uma elevada movimentação de contentores vazios, da ordem dos 30%.

Em contraste, Sines movimenta atualmente cinco vezes menos que LA, sendo cerca de 80% carga de transbordo. Ao contrário de LA, há um equilíbrio razoável entre importações e exportações, pelo que a movimentação de contentores vazios é relativamente pequena.

Sines e LA têm condições para receber os maiores navios-mãe em operação e em construção, com calados até 16 m. Contudo, ao contrário de Sines, esta profundidade está limitada apenas a alguns dos terminais em LA.

ii ) Ligação ferroviária:

Tal como Sines, LA é servida por ligações ferroviárias diretas nos seus terminais (“on-dock rail”), que constituem um fator crítico de sucesso. Conjugado com Long Beach, circulam mais de 100 comboios por dia com contentores, sendo que cada composição atinge comprimentos de até 4,5 km, com duas alturas de contentores (“piggy-back”), atingindo capacidades da ordem de 1 000 TEU, com ligação a todo o território americano. É sabido que o transporte ferroviário de/para LA concorre diretamente com o transporte marítimo pelo Canal do Panamá, poupando cerca de seis dias no tempo de trânsito para a costa Leste dos EUA. Cerca de 50% do movimento portuário de LA tem origem ou destino fora da Califórnia, quase totalmente servido por ferrovia.

Em relação a Sines, é sabido que o desenvolvimento do Terminal XXI depende, desde o seu arranque em 2004, da ligação ferroviária a Lisboa/Bobadela, progressivamente estendida a outros portos secos estrategicamente localizados em Portugal e Espanha. Mais de 90% da carga do hinterland ibérico servido por Sines é transportada por ferrovia. A Medway (ex-CP Carga) está apostada num forte crescimento do tráfego ferroviário na Península Ibérica, por enquanto condicionado pelas conhecidas limitações da infraestrutura.

 

Mais do que Roterdão, frequentemente apontada como exemplo, Los Angeles (LA) é a melhor referência para o modelo de desenvolvimento de Sines.

 

Salvas as devidas proporções, Sines pode imitar LA na conquista, por via ferroviária, do mercado europeu. Para os mais céticos, convém lembrar que a DB Schenker/Transfesa opera comboios diários entre Valladolid e o centro da Europa e que Zaragoza já recebeu comboios com origem na China.

A ligação marítimo-ferroviária constitui cada vez mais uma vantagem competitiva para os operadores globais, criando uma séria ameaça para os operadores tradicionais. Um exemplo disso é o serviço Land Sea Express que a Cosco oferece a partir do porto de Pireus. O objetivo é chegar ao Norte da Europa por comboio, reduzindo o tempo de trânsito do Extremo Oriente em cerca de dez dias. Por enquanto a via férrea não permite essa ligação, mas se/quando isso acontecer terá necessariamente um impacto negativo nos portos do Norte da Europa.

iii ) Centros de distribuição regional:

LA partilha com Long Beach cerca de 5 000 ha de área dedicada a parques logísticos e centros de distribuição regional (RDC’s). As principais cadeias de distribuição americanas, como a Walmart, Target e Cotsco, utilizam LA/LB como RDC’s para bens de consumo asiáticos. A Amazon também tem aí um enorme centro de distribuição para o comércio eletrónico próprio e de terceiros, conhecido por FBA (“Fulfillment by Amazon”).

Em Sines não existem RDC ‘s e a atividade logística de contentores fora do Terminal XXI ainda é incipiente. Contudo, o desenvolvimento desta atividade é não só inevitável, pela oportunidade de negócio gerada pelo Terminal XXI, como essencial para a continuação do crescimento deste terminal e desenvolvimento do Terminal Vasco da Gama. A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), gerida pela Aicep Global Parques, oferece excelentes condições para esse efeito: uma área de 2 400 ha extensível até 4 200 ha, onde se localiza uma zona de 270 ha, adjacente ao porto, reservada para atividades logísticas (ZALSINES).

iv ) Zona de Comércio Internacional:

LA tem a maior zona de comércio internacional nos EUA, cobrindo uma área de 2 100 ha  (“Foreign Trade Zone 202”). Esta zona tem um estatuto semelhante às Zonas Francas consignadas no Título VII do Código Aduaneiro da União (CAU), permitindo um tratamento aduaneiro de exceção para atividades de natureza industrial, comercial e de prestação de serviços, destinadas ao mercado internacional. Parece evidente que Sines deverá obter este estatuto para potenciar o desejado desenvolvimento da ZALSINES.

v ) Ligação porto-cidade:

O Porto de LA é um departamento municipal (LA Harbor Department), administrado por cinco comissários nomeados pelo presidente da Câmara e por uma equipa de gestão liderada por um Diretor Executivo. Este modelo de governação hanseático, comum nos portos do Norte da Europa, assegura uma grande sintonia entre desenvolvimento urbano e portuário.

Em contraste, o Porto de Sines (APS) é uma sociedade anónima gerida por um conselho de administração nomeado pelo ministério tutelar. Contudo, existe uma ligação próxima e grande sintonia entre a APS e a Câmara Municipal de Sines e entre estas e a Aicep Global Parques, responsável pela ZILS. Para mais, as três entidades são membros associados da CPSI – Comunidade Portuária de Sines que tem por missão a promoção do desenvolvimento do complexo marítimo, industrial e logístico de Sines.

 

A CPSI – Comunidade Portuária de Sines, participou recentemente numa missão comercial à Califórnia, no âmbito do programa Alentejo Global Invest, uma iniciativa da ADRAL – Agência para o Desenvolvimento Regional do Alentejo.

O objetivo da missão foi a promoção do complexo marítimo, industrial e logístico de Sines junto de várias comunidades californianas, designadamente San Francisco/Oakland, San Diego, Ventura/Hueneme e Los Angeles/Long Beach.

Para já, ficou uma certeza: a organização e a qualidade das visitas e reuniões, conseguidas com o apoio da Aicep e do Departamento de Comércio dos EUA, permitem antever boas perspetivas para o futuro, que só o tempo confirmará.

 

Jorge d’Almeida
Presidente da Comunidade Portuária de Sines

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